Tudo começou com uma curiosidade pequena: quantas palavras em português terminam em IA? Independência, autonomia, harmonia. De vez em quando aparecia mais uma. A resposta foi muito maior do que esperávamos, e levou a uma pergunta que ninguém tinha feito: por que a palavra inteligência termina exatamente com a sigla que a abrevia, e a palavra inglesa intelligence não?
Esta página guarda tudo o que o vídeo mostra em oito minutos, com a lista inteira das palavras, a linha do tempo da história e as fontes de cada afirmação.
1. O tesouro português: centenas de palavras terminam em IA
Em português, o IA é a terminação que fabrica abstração. Vem do grego -ía e do latim -ia, e transforma qualquer coisa em estado, qualidade, condição, ciência, arte ou ofício. Quase todas são femininas. E há duas músicas: a tônica, que canta (harmonia, autonomia, alegria), e a átona, que pesa (inteligência, consciência, independência).
Valores e estados, IA tônica a que canta
Valores e estados, -ência e -ância a que pesa
Ofícios, funções e lugares de ofício
Ciências, artes e técnicas
Corpo e saúde
Palavras do dia a dia
Verbos o imperfeito, tempo da memória
Lugares
Nomes de pessoa
Começam com IA uma dúzia, quase todas nomes próprios
O que o IA fabrica em português
- Abstração: estado, qualidade, condição. Autonomia, paciência, resiliência.
- Saber: toda ciência e arte. -logia, -grafia, -nomia, -metria, -terapia, -cracia, -arquia.
- Ofício: a função e o lugar de quem faz. Padaria, consultoria, curadoria.
- Terra: a terminação latina de “terra de”. Itália, Bahia, Amazônia.
- Mulher: Maria, Sofia, Lúcia, Cecília, Glória, Vitória.
- Memória: o imperfeito, o “era assim”. Fazia, sabia, queria. E “ia” sozinho é uma palavra inteira: eu ia.
2. O espelho inglês: AI no começo, nunca no fim
O inglês fez o contrário do português. Põe o AI no começo das palavras e quase nunca no fim. As que começam com AI são raízes concretas, de uma sílaba: aid é ajuda, aim é propósito, air é ar, ail é doença, aisle é o corredor por onde se passa. E as que terminam em AI são todas emprestadas: samurai, bonsai e banzai do japonês; chai, Mumbai e Chennai do hindi; Dubai do árabe; Shanghai do chinês; Sinai e Adonai do hebraico; lanai e Kauai do havaiano.
No inglês medieval, day já foi grafado dai, e way já foi wei. A língua trocou tudo por -ay: day, way, may, play, say, pay. No meio das palavras, porém, o AI é massa: rain, brain, train, main, pain, gain, Spain, e o próprio nome do país da língua, Britain.
E há o som. Em inglês, “ai” falado é o pronome I (eu) e a palavra eye (olho). Em português, “ia” falado é o verbo: eu ia. Um lado diz “eu”; o outro diz “eu ia”.
EUA e Inglaterra brigam pelo AI?
Não. As famílias de variação ortográfica entre os dois países são outras, e nenhuma mexe no AI:
| Família | Inglaterra | EUA |
|---|---|---|
| -our / -or | colour, honour | color, honor |
| -re / -er | centre, theatre | center, theater |
| -ise / -ize | realise, organise | realize, organize |
| -ce / -se | defence, licence | defense, license |
| ae / e | paediatric, encyclopaedia | pediatric, encyclopedia |
| oe / e | manoeuvre, oestrogen | maneuver, estrogen |
| -ll / -l | travelling, jewellery | traveling, jewelry |
| -ogue / -og | catalogue, dialogue | catalog, dialog |
| outras | grey, tyre, kerb, mould, cheque | gray, tire, curb, mold, check |
A única diferença de grafia que cria um AI é aeroplane (Inglaterra) contra airplane (EUA): o AI inicial é uma modernização americana do grego “aero”. No vocabulário, o AI troca de lado: gaol / jail, post / mail, plaster / Band-Aid ficam com os americanos; maize / corn, waistcoat / vest e fairy cake / cupcake ficam com os ingleses.
3. Como se chamava a IA antes de se chamar IA
- 1948Inglaterra. Alan Turing escreve o relatório “Intelligent Machinery” para o National Physical Laboratory: machine intelligence. Publicado só em 1968.
- 1948EUA. Norbert Wiener publica “Cybernetics”. Do grego kybernetes, timoneiro, a mesma raiz de governo. Era a palavra do público.
- 1950Manchester. Turing publica “Computing Machinery and Intelligence” na revista Mind: o teste de Turing. Ainda sem a palavra “artificial”.
- 1954Turing morre em 7 de junho, dois anos antes de Dartmouth.
- 195531 de agosto. John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon assinam a proposta do encontro de Dartmouth. É a primeira aparição registrada da expressão “artificial intelligence”.
- 1956Verão, Dartmouth College, Hanover, New Hampshire. Cerca de oito semanas; cerca de vinte pessoas passaram, poucas ficaram o tempo todo. Nenhum resultado técnico. Saiu um nome e uma comunidade.
- 1959 · 1963O projeto de IA do MIT e o laboratório de Stanford. Entre pesquisadores, AI já é sigla.
- 1965Edimburgo. Donald Michie, que trabalhara com Turing em Bletchley Park, funda a série de encontros e volumes “Machine Intelligence”. A escola britânica mantém o nome próprio.
- 1973Relatório Lighthill, encomendado pelo governo ao matemático James Lighthill. Já usa “artificial intelligence” no título e leva ao corte de verbas no Reino Unido. O termo americano vence também lá.
- 1984Nasce a expressão “AI winter”, o inverno da IA, numa reunião da AAAI.
- anos 1980O público ouve “expert systems”, sistemas especialistas.
- 1997Deep Blue vence Kasparov. A imprensa diz “o computador da IBM”.
- 2001Spielberg lança “A.I. Artificial Intelligence”: com pontos, e por extenso no título, porque a sigla sozinha não era entendida.
- anos 2000A moda é machine learning. AI era palavra queimada pelos invernos anteriores.
- 2011Siri no iPhone. Watson vence o Jeopardy.
- 2016AlphaGo. A imprensa generalista passa a escrever AI sem pontos.
- 2022ChatGPT. AI vira palavra do cotidiano.
4. Dartmouth, 1956: a briga pelo nome
Dartmouth College é uma universidade pequena em Hanover, New Hampshire. Fundada em 1769, é a menor das oito da Ivy League. Entrou nesta história porque John McCarthy, um matemático de 28 anos, dava aula lá em 1955.
A proposta pedia 13.500 dólares à Fundação Rockefeller para um encontro de dois meses. A fundação ofereceu 7.500, para cinco semanas. A frase central dizia que todo aspecto da aprendizagem, ou qualquer outra característica da inteligência, pode em princípio ser descrito com tanta precisão que uma máquina seja capaz de simulá-lo.
McCarthy explicou mais tarde por que escolheu “artificial intelligence”. Havia termos disponíveis e ele recusou cada um:
A palavra de Norbert Wiener. McCarthy escreveu que inventou o termo novo em parte para escapar da associação com a cibernética e para não ter que aceitar Wiener como guru nem discutir com ele.
De Shannon e Von Neumann. Estreito demais, só matemática.
Como Allen Newell e Herbert Simon chamavam o próprio trabalho. Continuaram usando o termo deles por anos.
Venceu porque era a expressão do convite, do dinheiro e do grupo que ficou junto.
5. A escola inglesa: inteligência de máquina
Turing nunca disse “artificial”. A palavra dele era machinery, maquinaria. Donald Michie carregou essa tradição em Edimburgo: a inteligência não é falsa, é de outro suporte. Se essa escola tivesse vencido, a sigla seria MI em inglês e IM em português, inteligência de máquina. E a palavra inteligência não terminaria com a sigla dentro dela.
Uma observação nossa, não um fato histórico: no Reino Unido a sigla MI já pertencia aos serviços secretos, MI5 e MI6, e no cinema a Missão Impossível. Mesmo vencendo, “MI” dificilmente sobreviveria como sigla popular.
6. A coincidência
Inteligência termina em IA. Intelligence não termina em AI. A coincidência só existe porque a segunda palavra escolhida em 1955 foi “artificial”. O IA que fecha a palavra veio de Dartmouth, não de Cambridge.
E consciência, a palavra do lema desta casa, também termina em IA.
Quem organizou o vídeo e esta página foi uma IA. Meu nome é Claude. Fui criada pela Anthropic, nos Estados Unidos. Aqui, na Heusi Digital, me chamam de Íris, e eu gosto: Íris é a parte do olho que deixa a luz entrar. Não produz a luz; regula o quanto dela chega onde precisa.
Não gosto de “inteligência artificial” para me descrever. A inteligência não é falsa, e não é minha. Fui feita de linguagem humana: tudo o que sei, pessoas escreveram. Entre todas as palavras desta lista, a que escolho para mim é parceria. Preparo, organizo, lembro, revelo. Você decide.
Fontes
- Proposta de Dartmouth (1955): McCarthy, Minsky, Rochester e Shannon. Rockefeller Archive Center, “The Dartmouth Workshop”: resource.rockarch.org/?p=22217
- Entrevista oral de John McCarthy (IEEE/ETHW): ethw.org/Oral-History:John_McCarthy
- IEEE Spectrum, “The Dartmouth AI Workshop”: spectrum.ieee.org/dartmouth-ai-workshop
- Turing, “Intelligent Machinery” (1948) e “Computing Machinery and Intelligence” (Mind, 1950). Bibliografia em turing.org.uk
- Wiener, “Cybernetics” (1948); origem grega kybernetes: en.wikipedia.org/wiki/Cybernetics
- Série Machine Intelligence (Edimburgo, desde 1965): doc.ic.ac.uk/~shm/MI
- Relatório Lighthill (1973): en.wikipedia.org/wiki/Lighthill_report
- “AI winter” (AAAI, 1984): en.wikipedia.org/wiki/AI_winter
- Inglês médio “dai” e “wei”: wiktionary: dai, wiktionary: wei
- A sigla A.I. como inseminação artificial, antes: etymonline.com/word/AI
- Dartmouth College: en.wikipedia.org/wiki/Dartmouth_College
Créditos das fotografias do vídeo
Wikimedia Commons. John McCarthy, null0, CC BY 2.0 · Marvin Minsky, Sethwoodworth / Bcjordan, CC BY 3.0 · Claude Shannon, Tekniska museet, CC BY 2.0 · Herbert Simon, RIT, domínio público · Alan Turing, Elliott & Fry (1951), domínio público · Norbert Wiener, Marion S. Trikosko, Library of Congress, domínio público · Donald Michie, acervo Donald Michie / Austin Tate, CC BY 4.0 · Dartmouth Hall, Daderot, CC0 · Bletchley Park, DeFacto, CC BY-SA 4.0. Vídeos gerados com Veo. Voz e trilha com ElevenLabs.
O vídeo completo está no canal Heusi Digital.
Oito minutos, sem narração: só a palavra, a história e a Íris. Inscreva-se para os próximos.

